SANTA CRUZ DO SUL - Embora tenha ido dezenas de vezes ao Rio de Janeiro, sempre para falar durante corridas ou escrever depois delas, conheço pouco a cidade. O itinerário de um fim de semana de corridas invariavelmente atém-se ao tradicional aeroporto-hotel-autódromo-hotel-autódromo-aeroporto, motivo pelo qual não sei picas do Rio. Sei que Jacarepaguá, onde ainda existe o autódromo, é Barra da Tijuca, porque um piloto de lá, para quem eu trabalhava e com quem não falo há eras, me contou.
Sem devaneios, fato é que não conheço o Rio. Mais que compreensível, portanto, que o nome Deodoro tenha sido de uma interrogação completa para mim quando surgiram os rumores, e não vão passar de rumos, da construção de um autódromo lá. Aí, dia desses, o Eduardo Homem de Mello fez e postou na internet um vídeo sobre a área onde as fadas garantem que vai haver uma pista de corridas. Publiquei o vídeo aqui no BLuc, inclusive.
Vendo-o, mesmo sem saber pra que lado aponta o sol em Deodoro, matei a charada sobre qual seria a desculpa oficial para o que todos já temiam, previam e sabiam: o ponto de fuga para os caciques do Rio estava, está, nas questões ambientais. Um sem-número de árvores iria abaixo caso alguém tivesse mesmo a intenção de construir o autódromo. Já estava, eu, escaldado com o argumento dos ecochatos, que travaram por 21 dias os trabalhos no autódromo de Cascavel porque o prefeito autorizou que derrubassem uma meia dúzia de pinheiros lá dentro para abrir espaço a boas áreas de escape. Dito e feito, as árvores já foram eleitas bode expiatório da questão.
Os defensores de causas automobilísticas não têm o hábito de aceitar com a devida naturalidade as fraquezas desse esporte, mas é de bom tom que se acostumem a mais essa: árvores são mais importantes que corridas de carros. E vai longe o tempo em que conviviam em plena harmonia, as árvores e as corridas.
CANOAS – Chego a Porto Alegre e, enquanto aguardamos uma taxiada qualquer da aeronave à frente, aciono a internet de bolso, esse dispositivo que a Juli tanto abomina. Procuro a repercussão do anúncio de Rubens Barrichello na Fórmula Indy, mas o que me chama atenção é outro assunto.
A notícia do dia, pelo menos no âmbito lá de Cascavel, é a de que o Instituto Ambiental do Paraná acaba de embargar as obras empreendidas pela prefeitura para reforma do autódromo. Cercada, inclusive, de uma caça à paternidade, TV Tarobá e o Waldomiro Cantini, da CBN, tergiversando tuiticamente sobre quem deu o furo, trocadilhos à parte.
Uma das alegações, percebo das informações que chegam lá da terrinha, é de que árvores que deveriam ser preservadas foram derrubadas. Outra justificativa, trazida pelo jornal O Paraná, foi de que a prefeitura não tem o devido licenciamento ambiental pra obra, obra que vai transformar aquilo num autódromo que se preze.
Não deve passar pela cabeça de ninguém que Edgar Bueno e sua equipe, depois de terem descascado um abacaxi tão grande quanto o do autódromo, fossem derrapar num praxe relativamente simples, como uma credencial ambiental. Menos ainda que o prefeito tenha mandado derrubar árvores sem ao menos repor o prejuízo ao ecossistema (putz!) com o plantio de uma quantidade xis de mudas noutros cantos ou qualquer providência equivalente.
O que me parece, de início, é que o IAP quer aparecer. Como bem observou o colega Juliano Júlio no Twitter, conseguiu, o distinto instituto, um pouquinho dos holofotes do processo. “Estão fazendo isso porque o povo já esqueceu que existe IAP”, observou o JJ, acrescentando que o caso do shopping Catuaí, outro que enfrenta dura resistência dos ambientalistas, “já morreu na mídia”.
Respeito quaisquer tipos de causas, dando ou não meu aval a elas, e faço ressalvas veementes a qualquer defesa que se cerque de fanatismos. O IAP, concluo, nada mais faz no episódio de hoje que querer aparecer, propondo entraves que, no mundo real, não vão resultar em nada além de aborrecimentos. Esse pessoal às vezes faz por merecer o rótulo de “ecochatos”.
A Comunicação do Município produziu um vídeo com uma rápida entrevista do prefeito, esse aí abaixo, numa visita feita ao autódromo na quinta-feira passada. De início, eu o postei como sendo uma visita de hoje cedo e comentei que Edgar não fez qualquer menção à intervenção dos ambientalistas. Quem alertou para a gafe foi a Edilaine Castoldi, que foi minha colega de faculdade e hoje está lá no terceiro andar do Paço.
Ah, e esse é o primeiro post do BLuc que traz no início o nome da cidade de onde escrevo, como usávamos nas matérias lá do jornal, como o pessoal que mantém bons blogs costuma fazer. De detalhe em detalhe, isso aqui pode se tornar um blog respeitável um dia. Talvez eu até passe a tratá-lo como “blogue”, como faz o parceiro Luiz Pandini, do PandiniGP. E as fotos da reforma do autódromo que publiquei aqui foram pinçadas, a sugestão de um amigo, do perfil feicebúquico do Paulo Prado, que não conheço, mas a quem agradeço.
Jornalista, locutor e narrador de corridas, cantor de música sertaneja por esporte e, o que é melhor, corintiano. O que faço nas horas vagas? Não tenho horas vagas.