
Fotos dos tempos dos rabiscos no jornal, eu com o Leodefane. Tínhamos cabelo em boa dose, os dois, naquela época.Hoje fui à agência de turismo marcar uma passagem. A atendente, um tanto avoada, perguntou-me que dia era, para preencher em algum lugar, e eu respondi, claro, 3 de fevereiro. Na hora, uma campainha soou na cabeça. Essa data é especial por alguma coisa.
Foi fração de segundos para lembrar. Foi em 3 de fevereiro, no ano de 1992, que começou minha vida profissional. Leodefane Bispo, já remanejado de chargista a diagramador do jornal
O Paraná, apareceu na minha casa por volta das 11 da manhã. Na casa dos meus pais, já que eu, fedelho de 14 anos, não tinha a mínima pretensão de sair de lá. Via-o toda semana no próprio jornal, eu naquela época frequentava a redação, sonhava ser desenhista, já auxiliava na montagem das páginas do jornal destinadas à criançada. Não recebia um puto por isso.
Léo na minha casa numa segunda cedo não era coisa normal, afinal só havia estado lá uma única vez. Fora de sua rota, para ser um simples desfalque no almoço – que, como lembrou minha mãe agora há pouco, rolou à base de polenta com molho de carne moída e suco de caju, adorava quando ela fazia isso, e diante da lembrança dela já a incumbi de repetir o cardápio no almoço de amanhã.
Enfim, a visita tinha um propósito, o de me avisar que o menino que cuidava do arquivo de fotos do jornal tinha sido demitido. Achei que fosse piada o motivo da demissão, estava tentando matar moscas com uma régua e foi alertado pelo editor-proprietário Emir Sfair, este a caminho de sua jornada no banheiro, que se fizesse aquilo de novo estaria na rua. Emir voltou da leitura matinal, a régua continuava perseguindo os pobres insetos e a vaga de arquivista, não sei se esse é o termo correto, estava aberta. Como que a quem chegasse primeiro.
Almocei e fomos para o jornal, Léo, eu e meu pai, que nos deu carona em sua Brasília azul, a mesma que pegou fogo depois, história para outra ocasião. Eu teria de falar com Toninho Sbardelotto, o chefe de redação. Um sujeito que me amedrontava. Toninho, à minha percepção, tinha fama de mau, andava sempre de cara fechada. Andrezinho, dono do jornal, à época querendo saber bem mais que os seus vinte e poucos anos, também tinha fama de mau, e um dia, em 1988, derramei um copo de Toddy nas costas dele, achei que fosse morrer, mas ele deu risada e foi ali que com ele fiz amizade, afinal não adiantava chorar o Toddy derramado.
Emir era amigo e cliente do meu pai, que vendia produtos coloniais num comércio modesto no Parque São Paulo. Em certo encontro casual, acho que nos corredores de um supermercado, perguntou ao velho o porquê de eu ter sumido lá da redação. Neinha, como era chamado meu pai, explicou-lhe que era difícil eu conviver com Wanderley Damasceno, ex-chargista do jornal que havia voltado para lá convertido à igreja evangélica depois de uma incursão pelo lado mais obscuro da vida. Era crente novo, fanático, não gostava que eu frequentasse o estúdio de charges. Sumi por uns tempos. Emir sugeriu ao velho que me “mandasse voltar” pra lá, gostava de me ver por lá, disse que a mesa dele estava à inteira disposição dos rabiscos que eu produzia.
Enfim, nunca trabalhei com artes no jornal. Trabalharia com fotos, se perdesse o medo de falar com Toninho. Depois de umas duas horas andando para lá e para cá, pensando em como abordá-lo, ele surgiu na copa, onde eu filava um sanduíche de presunto com queijo, e disparou um cumprimento de praxe. Retribuí e emendei a questão sobre a vaga no arquivo. “Quer pegar?, é sua”, foram as palavras do protocolar diálogo que me integrou àquele grupo. E aquele arquivo de fotos, ainda fotos impressas em papel, estava uma nojeira, o antecessor devia ter despendido tempo em excesso à sua caça às moscas, concluí. Levei uns 15 dias para pôr tudo em ordem, mas ficou bem apresentável.
Um mês e meio depois, me delegaram a página de variedades do jornal, e mais alguns meses depois, quase por acaso, virei editor de automobilismo. Não era segredo para ninguém meu gosto pela coisa, e num sábado à tarde, estávamos na redação apenas Waldir Costa e eu, assistíamos pela Band ao Marlboro Challenge, uma prova extra-campeonato da Fórmula Indy no oval de Nazareth. Waldir, que hoje vive pelas bandas de Rondônia, aconselhou-me a prestar atenção à corrida, eu respondi que estava prestando, ele reforçou para anotar algumas coisas porque a matéria sobre aquela corrida seria feita por mim. Me pegou no susto, claro, nem havia espaço para aquilo na edição do domingo, mas escrevi, algo em torno de uns 1.100 caracteres sobre a vitória de Emerson Fittipaldi, e ele sacou um texto qualquer que abria uma das páginas esportivas para incluir aquela obra-prima.

A partir daí, partiu a indicação do próprio Waldir a Toninho, com quem há tempos eu já arriscava até umas brincadeiras – não era tão mau assim, afinal; a bem da verdade, de mau não tem nada –, para que me efetivasse na cobertura das corridas. Algo aceito também sem cerimônias, com o positivo de Emir, que avalizava meu trabalho apesar das retrucadas que por vezes eu dava às ordens que dele recebia. O primeiro GP de Fórmula 1 sobre o qual escrevi, naquele novembro de 1992, foi o da Austrália, último do ano, vitória de Berger com a McLaren. Minha primeira cobertura foi a “Cascavel de Ouro”, 20 de dezembro; a primeira entrevista da jornada fiz com Nelson Piquet, que veio à cidade para acompanhar o evento, meses depois de ter os pés esmigalhados num acidente em Indianápolis,
esse aqui. Um moleque de 15 anos, doente por automobilismo, fazendo a primeira entrevista de sua vida com um tricampeão de F-1, vejam só. Achei o máximo.
Para evitar acúmulo de trabalhos, Emir pediu que eu indicasse algum “coleguinha” para cuidar do arquivo de fotos, e foi assim que surgiu para a imprensa o Jefferson Lobo, que era parceiro de música sertaneja. A dupla era Lobo & Luciano, soava bem. Durou uns dois anos. Em 1995, sob indicação de Emir, passei a conciliar o trabalho na editoria esportiva com o fechamento geral do jornal, jornada dupla que durou até 2001, quando não aguentava mais ficar todas as noites na redação e resolvi pedir as contas. Eu havia começado a trabalhar com assessoria de imprensa na agência do Clóvis Grelak, podia trocar um emprego pelo outro. Com o dinheiro do acerto paguei umas dívidas e comprei meu primeiro carro realmente apresentável, um Fiat Tipo 1995. O fusquinha 1981 foi de entrada. Continuei lá no jornal, só lidando com a cobertura esportiva.
Minha vida no
O Paraná durou até fins de 2008, quando, sob nova direção, houve algo como um conflito de metas entre mim e os novos diretores. Sairia em fevereiro passado, saíram comigo antes, e assim a vida seguiu seu curso. Nesses quase 17 anos de casa, vali-me do lido com o automobilismo nas páginas, do qual nunca me desliguei, para preencher uma valiosa agenda de contatos, que me permite, nos dias de hoje, fazer o que mais gosto, que é escrever sobre corridas, narrar corridas, atuar em locução de arena nos eventos do esporte motor. Trabalho abençoado, o meu.
Para um relato já muito mais extenso do que deveria ser, censuro-me de lembrar mais histórias lá de dentro do “Jornal de Fato”, esse é o
slogan até hoje, e são muitas, algumas divertidas. Aprendi a ser jornalista, aprendi que ao contrário do que se prega o jornalismo comporta pessoas decentes e de caráter como Emir e Toninho, figuras a quem sempre dispensei atenção especial não pelas posições de chefia que ocupavam, mas pelo exemplo de bom caráter. Pessoas especiais, de fato.
Dezoito anos, é o tempo que tudo isso já dura. Uma janela considerável para acontecimentos, tempo em que morreram, por uma pretensa ordem cronológica, Jânio, Ulysses, Daniella Perez, Senna, Mussum, Tom, Costinha, os Mamonas, João Paulo, Tim, Leandro, Figueiredo, meu pai, Covas, George, Saddam, Reagan, Arafat, o outro João Paulo – aquele da Polônia –, Brown, Pinochet, Sperafico, Aurélio, Michael. Muita gente morreu em dezoito anos. Alguns foram tarde. Emir, Andrezinho e Damasceno também morreram.
Minha vida profissional completa dezoito anos. Uma maioridade. A poucos dias de eu enfim meter a mão no canudo de Jornalismo, faculdade que concluí a duras penas, com pouca paciência, já tendo rompido a casa dos 30 e com filho pequeno, isso são barreiras consideráveis. Leodefane, aquele da polenta com carne, foi meu professor na faculdade, inclusive, Antropologia Cultural era a disciplina que lecionava. Disseram-me que eu seria um jornalista melhor se tivesse diploma. Tomara que tenham razão.
3 de fevereiro. Foi a data em que, dezoito anos atrás, passei a me conhecer por gente.
(ATUALIZANDO EM 4 DE FEVEREIRO, ÀS 9h26)
Quando leu que minha mãe reeditaria no almoço de hoje a magnífica polenta com carne moída de 18 anos atrás, Leodefane Bispo manifestou-se de novo. Desta vez, pelo menos, pagou adiantado: resgatou algumas fotos dos tempos em que eu frequentava seu estúdio de artes no jornal. Mandou-me também a foto abaixo, de uma daquelas confraternizações de fim de ano, ainda a instalação antiga da redação, essa de quando eu já era titular do time. O pessoal lá d'O Paraná vai se divertir tentando identificar as pessoas da foto.
Grande abraço, Léo, e obrigado por tudo. Tudo começou naquele almoço de cardápio simples em que todos lambemos os beiços.)