domingo, 7 de novembro de 2010

A volta narrada por Senna

O GP do Brasil de quase de 17 anos atrás seria o último de Ayrton Senna. Naquele fim de semana, um momento histórico foi anunciado e consumado pela Rede Globo nas transmissões de televisão.

O treino livre da sexta-feira foi mostrado ao vivo, Ayrton enfim ocupava o cockpit da Williams que definira como de outro planeta, a expectativa era muito grande. Em determinada saída para a pista durante aquele treino, o próprio Ayrton descreveria, de dentro do carro, sua volta pelo circuito. Primeiro, vamos a ela, do modo como foi apresentada aos telespectadores.



Como bem define Galvão Bueno, essa foi de arrepiar. Lembro-me de, dias depois da volta narrada por Ayrton, ter ouvido Paulo Martins, em seu comentário diário “Ponto de Vista” na TV Tarobá, lá de Cascavel, acusar a Rede Globo de ter cometido uma fraude. À época eu não tinha o mínimo conhecimento da pista de Interlagos. Continuo não tendo, embora, nos últimos três anos, é provável que tenha estado mais vezes no autódromo que na escola do meu filho, um contato suficiente para apontar algumas observações, que compartilho com vocês.

Revendo o vídeo aí de cima a partir dos 41 segundos, ouvimos o piloto dizer “e a gente agora entra numa freada forte para o misto do circuito, a curva mais lenta do circuito, em segunda marcha”. Senna, no vídeo como foi mostrado, faz tal comentário entre o Laranjinha e o Pinheirinho. A curva mais lenta do circuito, sabe-se, é o Bico de Pato, que aparece no vídeo entre os 52 e os 55 segundos. Presumo que a freada forte citada pudesse ser a que antecede a tomada à direita que leva ao Pinheirinho, há quem a trate como “primeira perna do S de baixa”. A citação à freada forte acontece aos 44 segundos do vídeo. A tomada que penso ser alvo dessa descrição já havia sido feita a partir dos 39.

Ayrton continua. “Depois à esquerda no Mergulho, aqui, joga a terceira, despeja potência. Vai pra quarta e freada novamente. Outra curva lenta, em segunda marcha”. Esse áudio caberia perfeitamente entre a saída do Pinheirinho e a aproximação do Bico de Pato, trecho mostrado dos 42s aos 55s e que coincide com o instante em que se ouve a já citada narração de Ayrton para a frenagem da primeira perna do S de baixa.

Parênteses. Indiquei Mergulho com maiúscula por supor, inicialmente, tratar-se da curva que o vídeo mostra entre 57s e 1min01s. Mas, depois de ver e rever esse vídeo diversas vezes na última hora, concluí que Ayrton referia-se a um mergulho, como chamamos a manobra com que um piloto atira-se à tangência de uma curva qualquer. Fecha parênteses.

Há mais sobre este trecho. O comentário vai ao ar no momento em que Ayrton toma o Bico de Pato. Não diria “depois à esquerda” fazendo uma curva à direita, penso. Uma das primeiras noções exigidas para a pilotagem é noção de esquerda e direita, não?

Seguimos na carona anunciada com Ayrton Senna: “...freada novamente, outra curva lenta, em segunda marcha. A saída dessa curva vai pro Mergulho. Terceira, quarta, quinta marcha, uma curva bem veloz”. Essa é, de fato, uma descrição perfeita para o trecho entre o Bico de Pato e contorno do Mergulho. Só que compõe o material de 57s a 1min03s, enquanto, pela imagem, Ayrton contorna o Mergulho e aproxima-se da freada para a Junção.

Em frente, de 1min10s a 1min14s, ouvimos Ayrton descrever “agora a freada para a entrada da subida da reta, em terceira marcha”. Nitidamente, refere-se à freada para o contorno da Junção, à esquerda. Ocorre que, enquanto ouvimo-lo dizer isso, já está há algum tempo em aceleração plena na subida que leva ao Café e à reta dos boxes – é o instante em que deixa para trás o Simtek de David Brabham.

A partir de 1min15s, o áudio que, numa boa edição, eu aplicaria já a partir do instante em que a imagem mostra Ayrton saindo da Junção: “Aqui, despeja toda a potência, quarta, quinta... E agora... sexta marcha”. Quando, depois de uma breve pausa, o piloto anuncia a sexta marcha, a imagem mostra-o já em plena redução de marchas para a entrada do S ao final da reta principal, que leva seu nome.

“E aqui se completa a volta no circuito de Interlagos”, arremata o áudio de Ayrton, numa descrição mais do que própria para o instante em que estaria cruzando a linha de largada e chegada. Pelo material apresentado, ele diz isso enquanto acelera em descida para a segunda perna do S. Sua narração não para. “A freada do S do Senna”, descreve. A freada do S do Senna antecede a primeira curva da pista, embora o áudio seja apresentado enquanto contorna a terceira, batizada como curva do Berger, ou também como curva do Sol, numa reciclagem do nome utilizado quando do circuito antigo de quase oito quilômetros – àquela época, essa curva era contornada em sentido inverso.

Em praticamente toda a volta que a emissora anunciou como narrada ao vivo pelo piloto, as explicações e descrições são dadas por Ayrton Senna com nítido atraso em relação aos trechos que percorre. Honestamente, não vejo motivo para a Globo se sujar por pouca coisa, como diz-se por aí. Menos ainda alguma razão lógica para Ayrton participar de uma pressuposta armação editorial. De qualquer modo, o material levado ao ar emana detalhes no mínimo estranhos.

E você, o que acha disso?

ATUALIZANDO EM 20 DE SETEMBRO DE 2011, ÀS 13h51:
O link que eu havia postado quase um ano atrás, aqui, é de um vídeo que depois foi removido do YouTube pelo autor. Coloquei de novo o mesmo vídeo, postado no Facebook pelo Alysson Vilela. Tudo que observei aí acima continua valendo.

1 comentários:

Vasconcelos disse...

Ei Luc. Delay. Acho q o audio mesmo q sendo anunciado como ao vivo deve passar por mais locais do que a imagem. Ou não? #oclebermachadomode