quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Cascavel: o bonde da história (1)


A cada boca na comunidade automobilística de Cascavel, uma solução para o problema do autódromo. E qual é o problema do autódromo? Na condição em que está, não serve para nada. Ou serve para muito pouco. Os automobilistas de plantão bradam, como honra histórica, o fato de ter sido Cascavel a cidade do interior que teve o primeiro autódromo do Brasil, inaugurado que foi em 1973, quando existiam pistas asfaltadas apenas em São Paulo e Porto Alegre – Viamão, na verdade, o que não vem ao caso.

Com estrutura defasada e a possibilidade de investimento travada no fato da área do circuito pertencer a um consórcio privado, Cascavel virou nada mais do que passado para o automobilismo brasileiro dos dias de hoje. E eventuais investidas específicas para atrair eventos às bandas de cá esbarram na inexistência de uma cultura local de investimento nas coisas deste esporte. Trocando em miúdos, nada dá em nada.

Historicamente, em se tratando de automobilismo, Cascavel foi uma cidade à frente de seu tempo. Antes mesmo de atingir a maioridade, com o advento do autódromo, atraía os principais nomes do esporte nacional para memoráveis competições. Criou-se uma cultura de turismo do automobilismo, autódromo abarrotado de aficionados a cada largada.

Difícil encontrar justificativa lógica para tal advento. Geograficamente, a cidade nunca esteve perto do eixo logístico exibido pelo automobilismo, nem dos grandes centros tecnológicos. Foi mesmo por obra e graça de dezenas – centenas, a bem da verdade – de abnegados liderados por Zilmar Beux que uma cidade do meio do nada ganhou projeção pela sede de uma pista de corridas.

Com o passar dos anos, a importância de Cascavel no contexto nacional foi frisada pela visão de Pedro Muffato, piloto, louco por corridas e então dono de emissora de televisão, que lançou mão de parte de sua estrutura para transmissão de corridas e, empreendedor, viu na empreitada um nicho empresarial com possibilidade de atraentes ganhos.

Por duas, talvez três décadas, Cascavel esteve em uma lista para a qual não deveria estar pronta, por raciocínio lógico. Manteve-se equiparada, por conta de ter seu autódromo, a centros como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Goiânia, Brasília. Algo utópico sob qualquer ponto de vista atual, seja ele direcionado ao esporte ou não.

Os donos do autódromo não quiseram – ou não puderam – investir mais do que já haviam investido para que a praça esportiva acompanhasse a evolução do esporte ao qual dedicaram parte de suas vidas e de seus patrimônios. Hoje, políticos, esportistas, pilotos, empresários, veem na municipalização do local a saída para que se promovam os investimentos necessários à gana de ver Cascavel de volta à cena. É tarde demais. O bonde da história passou.

Nenhum dono de evento em sã consciência se arrisca, nos dias de hoje, ao transtorno logístico de montar suas tendas a quase mil quilômetros de São Paulo, a quinhentos quilômetros de Curitiba, a quase mil e quinhentos quilômetros do Rio de Janeiro, tendo como contrapartida apenas uma perspectiva de autódromo lotado – e isso, acreditem, teríamos com facilidade na GT3, na F-Truck, na Copa Vicar, no Porsche Cup.

O autódromo cascavelense está fadado às corridas do campeonato regional de turismo, a eventuais disputas informais de arrancada para carros de rua, a uma ou outra prova oficial da arrancada paranaense. Talvez, em 2010, receba de volta a F-Truck, o que aconteceria mais pela falta de opção verificada pelos promotores da categoria que pelos méritos técnicos e logísticos das bandas de cá. No caso da Truck, pouco importa se seus primeiros momentos deram-se em Cascavel. Automobilismo é, acima de tudo, um negócio, e precisa ser gerido como tal pelos que a ele despendem seu trabalho.

Por quase três décadas, pois, o cascavelense pôde bater no peito e dizer “sim, nós temos autódromo”. Hoje, isso pouco importa. A área de quase 40 alqueires em que a pista está incrustada está mais fadada à especulação imobiliária do que a um esforço efetivo pela ressurreição da praça esportiva. Nada que relegue a cidade a motivos interioranos. É este, exatamente, o problema que levou à destruição do autódromo do Rio de Janeiro.

Zilmar Beux nunca teve o devido reconhecimento pela grandeza da obra que empreendeu. Algo à frente de seu tempo, repito. Mas que, como dizem, deu o que tinha de dar. O mais perto que se chegou de reverenciá-lo foi o batismo do autódromo com seu nome, em 2008, três anos depois de sua morte. Tenho comigo que Beux preferiria ver "seu" autódromo bombando, repleto de competições e de torcedores, mesmo batizado com o nome de algum desses oportunistas que só se criam por estas bandas.

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